sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Editorial

Arrepiar caminho...

Portugal assinalou a passagem de cem anos sobre a Implantação da República "mergulhado" numa profunda crise económica, estando nas cogitações dos mais pessimistas a possibilidade de falência do próprio Estado. Que pode ser real, tal é a "escalada" da dívida pública, se o país, de uma vez por todas, não arrepiar caminho no sentido da estabilidade e do crescimento.
Perante este cenário e os alertas avalizados de diversas figuras e entidades, nacionais e internacionais, o mais normal e aconselhável seria que todos, sem excepção, partidos políticos incluídos, "remassem" para o mesmo lado e norteados por objectivos comuns. A realidade, contudo, é bem distinta e continuamos todos os dias a assistir a pura guerrilha política, cujo objectivo primeiro é o de "marcar território" e de obter dividendos eleitorais (sendo as principais forças partidárias as que tomam a dianteira nesta "guerra" sem fim). Para trás ficam, assim, as reformas que todos reclamam e profetizam, em sectores vitais da sociedade portuguesa, mas que tardam em ser (verdadeiramente) colocadas em prática. Falamos por exemplo da Educação, onde os sucessivos avanços e recuos em muito pouco têm favorecido os alunos e, de uma forma geral, o sistema educativo (pelo contrário, reflectem-se negativamente na qualidade do ensino e, por consequência, dos que dele deviam beneficiar - residindo aí, também, grande parte do défice de valores e de cidadania actualmente existente); falamos da Saúde, sendo amplamente discutível (e na prática extremamente injusto, mormente para os mais necessitados), que a grande maioria das alterações produzidas resulte de meras intenções economicistas; falamos sobretudo da Justiça, onde reina o absoluto caos e o "salve-se quem puder", responsáveis pela gradual corrosão das bases inerentes a uma sociedade que se pretende verdadeiramente democrática, justa e solidária.
Está implícita, na forma como iniciámos este texto, a concordância com a generalidade das medidas recentemente anunciadas pelo Governo. São inevitáveis, estas ou outras parecidas, para que Portugal honre os seus compromissos e, assim, recupere a credibilidade e a confiança dos investidores e do “mercado” de uma forma geral. A questão, mais do que se serão suficientes, é se o país vai conseguir organizar-se de modo a que os mesmos erros não voltem, depois, a ser cometidos.
Pouco tempo depois das medidas de austeridade anunciadas e do optimismo do nosso Primeiro-Ministro relativamente à resolução dos problemas do país, a agência de notação financeira Standard & Poor's lançou a previsão de que o Produto Interno Bruto (PIB) português vai sofrer uma contracção de 1,8 por cento em 2011 e vai estagnar em 2012, justificando esta previsão de 2011 com a «expectativa de que o consumo venha a ser penalizado pelo aumento da carga fiscal e pela escassez de crédito na economia portuguesa». Mais uma (avalizada) achega para a necessidade de Portugal encontrar caminhos e estabelecer metas para o crescimento económico, ao invés de apenas “tapar o sol com a peneira” com sucessivos aumentos de impostos. De que estão à espera os partidos políticos para se entenderem nesta matéria?

António José Ferreira

1 comentário:

Ma-Ry disse...

O problema é que Portugal estava há 100 anos na cauda da Europa ocidental e continua na mesma posição no dia de hoje : a república não fez melhor do que a monarquia. Também é um facto que Portugal foi pessimamente governado nas últimas decadas, a todos os níveis.